O Dilema Entre Ser Urbana e Ser Feliz
Desterrado - por Frei Betto
No oitavo andar, mesmo descalço, estou distante da superfície. Há uma montanha de cimento e ferro entre meu corpo e a terra que produz alimentos e flores, abre-se em rios e mares, acolhe pedras e absorve chuvas.
Desço e, a caminho do trabalho, sou transportado por um veículo que me mantém a certa distância do dorso do Planeta. Trafego por avenidas que já forma rios e ruas que vedam as costas de nossa morada cósmica com uma densa camada de asfalto.
Subo no elevador, essa caixa metálica que nos distribui por salas e escritórios, marionetes agitadas de um gigante invisível que ri de nossa sofreguidão. À hora do almoço, piso calçadas espessas com meus pés cobertos por grossas solas de material sintético. Nunca deixo meu corpo em contanto direto com a mãe Gaia. Meu computador tem um fio-terra, mas eu não. Guardo em mim toda energia acumulada, excessiva, que dilata gorduras que entopem artérias, faz desabrochar úlceras, prepara o coração para o infarto e aquece a tensão quem me torna irritadiço e estressado.
Não tenho nenhum canal aberto por onde a energia acumulada possa fluir e descarregar. Não piso a relva para não sujar os pés; temo me arranhar na aridez das pedras; e quase nunca mergulho no mar, cuja salinidade opera o descarrego do corpo.
Ser aéreo, trafego sem contato direto com o Planeta que é minha terra mátria. Dele sugo a vida e minha própria história biológica e psíquica. Nosso percurso rumo à vida teve início, juntos, há 3,5 bilhões de anos, quando começou a resfriar o calor que revestia este fragmento de Sol.
Carregado pela fita isolante que me envolve, não piso na Terra e, por isso, piso em meus semelhantes. Impaciente, reajo bravo a todo contratempo e trago a intolerância como escudo. Sou um filho de Gaia que cortou o cordão umbilical, como se eu pudesse dispensar o leite materno.
Já não intercambiamos energias. Meus pés, guarnecidos por meias e sapatos, servem apenas para movimentar as pernas. Assim, isolo meu corpo e isolo o corpo do Planeta, escondendo-o sob pedras, areia, asfalto e prédios.
Enterro a Terra. Sem me dar conta de que, de fato, construo minha própria tumba, tão lacrada quanto a dos faraós. A diferença é que eles as ocuparam quando mortos. Eu ocupo um espaço muito mais amplo do que as pirâmides. Vivo no imenso sarcófago da megalópole, cujos shopping centers são pirâmides estilizadas. Ouço cada vez mais o sussurro dos mortos, e menos o hálito saudável de Gaia.
Sou um desterrado.

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